sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fábula



Ah! Nostalgia que me embala nessa noite borrada por nuvens, leva-me a passados não vividos e futuros imaginários. Guia-me como que por pena, ao saber das humildes intenções de minha alma.
Leva-me mais longe, apaga meu presente, entorpece-me de fantasias, de medos, de glórias.
Faz-me viver entre príncipes da miséria, entre reis de favelas, entre mendigos da elite e os desgraçados da riqueza.
Abraça-me em outras terras, outras águas e ares. Mas que me sejam ainda familiares.

Leva-me, mas me traga de volta a tempo de começar a dormir, para que possas passar teu trabalho ao teu amigo sonho.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A lei do ciclo do nitrogênio

A natureza dita as regras com mãos de ferro. Sob seu olhar frio e sarcástico, somos todos ingredientes da receita.
O ciclo do nitrogênio re-cicla toda matéria viva e a devolve para a atmosfera. (De onde talvez, nunca devêssemos ter saído). Mas a natureza é um artista que não quer saber se cria belas ou feras, apenas os cria.
No ciclo referido, toda a matéria orgânica se transforma novamente em nitrogênio, um dos ingredientes primários.
Várias bactérias conspiram juntas nessa atividade, e cada uma delas é uma operária importante na re-produção de matéria prima.
O processo é complexo, mas acontece mais ou menos assim: O nitrogênio é transformado em pelo menos três outros compostos por bactérias, as plantas se nutrem de algum desses compostos e os que não são capturados por elas são transformados em nitrogênio novamente por outras bactérias. Ok. E nós? Onde ficamos?
Alimentamo-nos (direta ou indiretamente) de plantas. Somos parte da cadeia alimentar. Nunca me considerei no topo dela, mas sei que estou lá, em algum lugar. Portanto possuímos a mesma essência, por mais que esse se alimente de produtos light com embalagens super descoladas, e o outro se alimente de grama.
Outra coisa que compartilhamos é o fim. Cada membro da cadeia, do gafanhoto ao tigre, do mendigo ao deputado, tem sua vida interrompida em algum momento. Alguns antes da hora, alguns demoram demais. Mas não sou eu quem decide.
O importante é que, depois que morremos, outras bactérias se alimentam de nós. Não faz diferença a cor, a classe social, ou o time de futebol. Temos o mesmo sabor no reino monera.
E da digestão de nossos corpos, as bactérias produzem amônia, que será re-aproveitada pelas plantas, ou transformada novamente em nitrogênio, re-iniciando o processo.
No final das contas, a amônia é um ótimo adubo. E nós somos amônia em embalagens estilizadas: Adidas, puma, ou qualquer outra multinacional, não importa: somos adubo.
Ninguém escapa a regra, nem mesmo as bactérias operárias que fazem a máquina funcionar. São substituídas por outras, re-postas. As engrenagens não param. Mãos de ferro. Modelo Henry Ford de industrialismo. Pois é, copiamos a natureza. A diferença é que a natureza não cobra impostos.
Diante de tantos “Res” seria importante (re)-pensarmos: Vale mesmo a pena nos colocar em um lugar inalcançável e exclusivo, inflando-se de nós mesmos, quando sabemos (o) que é re-all?



Notinhas de rodapé:

Re-all : (All) – “tudo” em inglês; tudo re-ciclável, re-utilizável, re-feito. – re-all – re-tudo.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

 Traço de dança.

Às vezes as palavras me faltam.
Sinto a necessidade de me agarrar a cada peça de qualquer grafia representada em uma folha velha, um caderno de notas, ou um laptop.
 Galgar em cada letra de forma ascendente até chegar à frase. Uma frase plana (e plena) que estruture minhas ideias da maneira que previamente pensei. Cada peça da grafia se junta, num plano, resultando em uma frase perfeita qualquer. Toda frase é perfeita. (aqui também caberia uma exclamação ou uma interrogação.)

Questão de observação. Há muitas palavras e várias maneiras de se ler a mesma. Como um disco, um quadro, uma moda.
Às vezes me sinto confuso entre letras sortidas, e o que me vem à cabeça é a ideia de que cada letra se encaixa de maneira única e pré-programada – erro meu, as palavras se divertem.
Completam-se sem qualquer capricho do destino: apenas o fazem. Sem regras, ordens, signos.
Recarrego meu pente com palavras e disparo ideias e ideais. Viu? Já estão brincando.

Costumo pensar que os acentos policiam as palavras. São dogmáticos, seguem as regras, são politicamente corretos e inflexíveis. São? Creio que mesmo com essa personalidade forte, os acentos se permitem alguns momentos de lazer, mudando de lugares entre palavras e trocando seus sentidos, causando surpresa e sorrisos abafados entre o alfabeto. Ninguém é de ferro.
Experimentar novos sentidos, infinitos. Muitos não conheço, serão futuro. Experimentar outro sentido, mesmo sem (tê-lo) tido.
As letras dançam. Uma valsa movimentada e cadenciada. A cada par, a cada música, novas palavras, novos sentidos. Como um tango ou uma bossa.
Não me sinto um bom regente, conheço e leio vários, “regentes de letras”, que embalam as palavras de forma única. Mas para ser um regente de letras não é preciso formação, apenas sentimento.