terça-feira, 18 de agosto de 2009

The Gates Of Hell, A Trilogia - Pt2 - As Bestas Que Montam

Acordei com terríveis dores de cabeça. Tudo estava turvo à minha frente, tudo bem, contando que aquilo tudo tivesse passado. Minha visão foi se adaptando ao local, e enquanto isso, eu via vultos cada vez mais agitados. A visão se normalizou, e com ela, veio meio pavor absoluto: eu estava no mesmo local em que caíra há não sei quantas horas atrás. O silencio que achei estar gozando, era nada mais, que minha falta de consciência. Tudo estava como antes.
Me recobrei com dificuldade, e tentei fazer um preparo psicológico em mim mesmo, me convencendo que aquilo iria continuar não sei mais por quanto tempo. Eu precisava ser forte.
Pelas conversas aos arredores, descobri que já era o segundo dia.

Meus companheiros, a essa altura totalmente sob os encantos maléficos, ignoravam completamente minha angústia, me deixando padecer em minha dor. Estavam ali, em êxtase, ansiosos por algo que parecia estar próximo. Algo que passava longe do limite da minha imaginação, e que me deixaria feridas profundas.

Foi quando aquela voz entrou rasgando o ar, fazendo estremecer meu corpo. Eu a conhecia, era familiar. Era horrível. Era o narrador bizarro.
Aquela voz me trouxe a certeza de que a tortura continuaria, e que não teria previsão de acabar.
Dessa vez, a voz mais grave e agitada que antes, conjurava versos horríveis, versos estes que creio terem sido escritos nas profundezas do inferno, sob a supervisão do próprio Belzebu.
Ele ofendia cada vez mais a língua portuguesa, deixando claro que era seu inimigo declarado. A essa altura, não obedecia sequer regras primárias de fonética. A língua mãe estava morta.
O narrador bizarro começa então a dizer vários nomes. Os amaldiçoados se agitam e balançam a grade, alguns tyrs escalam a cerca, e ficam balançando como primatas. Um a um, pessoas estranhas vão adentrando à arena. São amaldiçoados num nível nunca imaginado, com vestimentas características, mas exageradamente adornadas. Descobri que essas crias do mal se chamavam "Peões".
Eu esperava algum ritual negro, macabro. Mas era pior, muito pior.
Os "peões", sabe-se lá porquê, tinham a tarefa de alegrar a massa amaldiçoada, arriscando suas vidas em cima de animais furiosos. Era algo incompreensível. Senti pena daqueles pobres animais. E me refiro aos peões.
Os animais que eram montados estavam reagindo por extinto, algo natural, coisa que não acontecia com os humanos montadores, que faziam algo digno de vergonha.
A única regra clara era permanecer o maior tempo possível sobre o animal feroz. Isso causava uma alegria indescritível nas pessoas que assistiam, sabe-se lá porquê. Nada faz sentido quando se trata dos amaldiçoados.
Após muitos gritos, fugas desesperadas dentro da arena, e delírio das pessoas, o terrível teatro macabro acabara. Era chegada a hora de anunciar qual seria o tipo de tortura que eles guardavam para mim aquela noite. Eu pensei que, dificilmente na terra, haveria coisa pior do que as que eu já havia passado, mas eu estava amargamente errado.

As grades são abertas, e como uma onda negra e furiosa no meio de um oceano revolto, a multidão entra na arena, como se aquele fosse o ultimo show de suas vidas. Minha companheira, me segurando forte pelos braços, tirava de mim toda a esperança de uma fuga, mesmo muito fraco, talvez eu pudesse apenas...
Me tirando bruscamente destes pensamentos, uma luz muito forte atraiu minha atenção. De início era algo agradável, desenhos psicodélicos que se formavam no palco, muitas cores, muito movimento. Confesso que por alguns minutos me senti bem, mesmo em meio a tanto tormento e dor. Mas logo aquelas imagens lisérgicas se transformavam em imagens medonhas de medo e terror. Eram imagens de festas de peão com milhares de amaldiçoados por todo mundo, milhares de narradores bizarros, e duplas musicais que enfeitiçavam (no pior sentido da palavra) pessoas por todo o país.
Atrás daquela pequena amostra do mal, estavam duas figuras paradas, olhando, apenas espreitando o público. Quando as imagens cessaram, imediatamente eles começaram a cantar suas musicas satânicas, agora mais alto que nunca, e eu sentia como se meu coração estivesse sendo arrancado de mim pelas próprias mãos daquelas pessoas. Como fazia um certo vilão, no segundo filme da quidrilogia Indiana Jones.
Com uma simples frase de um dos cantores, mais dois surgiram no palco. Meu Deus! Eles estavam invocando duplas! Estavam criando e multiplicando o terror. Por geração espontânea, os dois novos cantores surgiram e se uniram aos que já estavam ali, e cantaram alto, como se quisessem fazer o mundo todo ouvir seus encantamentos malditos. Eu estava de joelho e não conseguia tirar os olhos daquela cena. A cada dia, eles aprendiam e praticavam mais maldades e perversões. Eu já não acreditava mais em uma salvação.
Tyrs e alta classe cantavam juntos. O mal havia unido raças historicamente inimigas, para um propósito mais cruel: adorarem e servirem eternamente a terrível ordem sertaneja.

Foram horas de terror, e eu comecei a perguntar aos Deuses porquê me mantinham vivo, seria mais fácil se tudo se acabasse ali, meu sofrimento iria embora e eu desfrutaria de paz. Mas eu continuava de pé, me sentindo o próprio judas pagando pelos seus pecados. Tamanha era minha dor.

Tudo se silenciou instantâneamente. Com medo de algo pior se materializando no palco, olhei devagar. Já não havia mais ninguém lá. Parece que outro culto maligno havia acabado. Uma pessoa entra sutilmente no palco, aparentemente normal.
Ele disse cindo palavras. Aquelas cinco palavras, tiraram o que me restava de vida. Eu caí novamente. Entrei num sonho profundo, um sonho turbulento. Eu estava caindo, e não conseguia ver uma superfície para que aquele terror se acabasse logo. nesse sonho, uma frase ecoava no infinito da minha mente:

"Se prepareeem! Amanhã tem AXÉÉÉ!"

[Continua]

2 comentários:

Anônimo disse...

[Joel Lacerda]

Simplesmente magnifico! haUhAUHA adorei em principal a parte do "assassinado da nossa linguagem"... rsrs

se continuar assim logo teremos um livro do luh...

SORTE PARA QUE ISSO ACONTEÇA!!!

Anônimo disse...

Jafé disse...
Estou com um leve pressentimento que nosse querido guerreiro não conseguirá sair dessa sem danos profundos a sua boo alma!