Os relatos que aqui se seguem, foram encontrados junto a um cadáver, dias após os eventos em questão.Estou sem forças... sinto a vida se esvaindo de mim, creio que me resta pouco tempo. Já suportei demais todo tipo de terror, blasfêmia, e torturas que um ser humano poderia suportar. Descobrir a verdade dos fatos me custou a vida. Minha ultima história em vida começa no momento que atravessei aqueles portões. Espero conseguir registrar os fatos, e espero que eles possam cair em mãos abençoadas. O mal está tomando proporções titãnicas.
Começou há três dias . Ao longe eu já conseguia ver aqueles portões. Eram negros, medonhos e intransponíveis. Ficava claro ao olhá-los, que tudo o que estava dentro continuaria lá. Dois seres de raça de guerreiros, maiores que o normal, os vigiavam, aumentando minha certeza de que algo não estava certo.
Quando cheguei no alto da colina, pude ver que todo tipo de raça viera até o local. Haviam muitas pessoas da alta classa da cidade, vários deles apresentavam os sinais da suposta maldição, pude ver um mar de chapéus, e aquilo me deixou muito intrigado.
Um pouco mais afastados, mas ainda próximo aos portões, haviam vários Tyrs, praticando suas danças e grunindo para as outras raças. Suas fêmeas se insinuavam pervertidamente para qualquer pessoa ao alcance. Eu sabia, por registros antigos, que o encontro dessa raça com outros povos nunca havia terminado bem, e eles não pareciam mais calmos desta vez.
Todos deveriam passar juntos pelos enormes portões, e eu percebí a tensão que pesava o ar. Apesar de vários guerreiros contratados para a segurança do local, todos sabiam o risco que corriam.
Me ví no meio de todo tipo de pessoas e tentava me manter calmo. Alí, ouvi alguns grunidos, alguns olhares de reprovação. Cada raça se mantinha junta ao atravessar. Olhando para cima, vi os portões negros que lançavam uma sensação de medo em mim, de algo que não se pode explicar com palavras.
Fechei os olhos, e eu e meus companheiros atravessamos juntos. Quando abrí os olhos já estava dentro, alívio. Alí as pessoas se dispersavam novamente em uma grande extensão. A área mais abaixo estava muito iluminada, deduzí que lá seria o local que iríamos.
Um pouco após a entrada, ouvi um barulho de algo se quebrando, o que chamou a atenção de todos que passavam no momento. Tratava-se de um tyr que havia arremessado uma garrafa de vinho contra a parede, e agora estava comemorando o feito com seus parceiros, dançando e fazendo gestos confusos. Muitas raças evitaram olhar, poderia ser o foco de uma guerra. Ouvi grunidos e praguejos, e decidi que deveríamos descer logo.
Um grande espaço iluminado e de frente a um grande palco estava cercado, parecia uma área para rituais. As pessoas se aglomeravam em volta do cercado, e alí dentro, vi um ser que parecia estar encantado a muito tempo. Seu chapéu era extravagante, suas calças muito apertadas, engolindo parte de uma camisa exageradamente xadrez. Sua fivela parecia uma travessa de alumínio, usada para servir cordeiros assados em banquetes reais. O ser profería palavras sem sentido, mas mesmo assim o povo se agitava, e correspondia a ele. Algo não estava fazendo sentido, porque as pessoas estavam alteradas diante da fala de um ser tão bizarro?
Passaram-se alguns minutos e ele começou a dizer versos medonhos, algo que me causava intensa vergonha, que feria profundamente o meu intelecto.
Entre um verso e outro, tocavam canções que faziam meu estômago dar voltas. Ele usava nossa lingua de forma totalmente inadequada, não respeitando plurais e conjugações de verbo.
Todos os versos me agrediam cruelmente, mas foi quando ele disse um em especial: " Como é que tá OS pessoal de Três PONTA" que eu me senti tonto e com o coração nas mãos.
As pessoas que estavam comigo não pareciam dar importância a minha dor, e se divertiam, correspondendo hora ou outra com risadas, ao animador bizarro.
Uma cena derrepente me fez tremer. O "narrador" trouxe uma criança para dentro da área cercada, e como uma pessoa amaldiçoada, essa criança vestia-se horrivelmente mal. Ele começou a ensinar versos para a pobre criança, que os repetia com alegria, até que, no momento mais sombrio daquele sacrifício humano, o garoto proferia sozinho palavras de horror.
Foi algo como: "Moça bonita, casa comigo, eu sou muito mais bonito que seu maridoooooooo". Ouvir isso da voz de uma criança foi uma das cenas mais tristes da minha vida. E não satisfeito, o pequeno guri pegou um instrumento feito com chifre de animal, e começou a tocá-lo em tons extremamente altos. Era uma combinação perfeita para manter todos que estavam alí amaldiçoados, e trazer os que não estavam para o lado negro ( se é que existia alguém que não estava).
De repente, fogos coloridos enfeitaram o céu. Foi a única coisa realmente bonita que me lembro destes ultimos dias. Quase esqueci de minha dor, e pensei em tamanho contraste de algo tão bonito num evento tão grotesco.
É anunciada a chegada das pessoas que seriam responsáveis pela música aquela noite. Era como de costume, dois nomes, tipo: "Fulano e ciclano" ou "Edson e Beltrano".
O primeiro apareceu no palco com os trajes da maldição, que assim como os do narrador medonho, eram demasiadamente exagerados. Quando o segundo membro entrou no palco, tentei fixar meus olhos, não era real. Não poderia ser real. Ele trajava roupas dos grandes e honrados guerreiros da tribo do rock n' roll. Eu não estava errado, tinha sido exatemente isso. Ele usava jaqueta de couro, calça surrada, e camiseta de algum grupo. E tinha em suas mãos, um instrumentos dos Deuses: Uma guitarra fender stratocaster cor de marfim, que estava roncando suas primeiras notas com distorção.
Eles haviam criado uma nova raça. Eles haviam misturado o horrível com o divino e criado algo extremamente perigoso. Algo que só poderia sair de uma mente diabólica.
Eu me ví imponente naquele momento. Ao som de distorção e de violas caipiras, as pessoas entravam em frenesí, uníssonos, cantando as bizarras canções, e aglomerando-se quase que em posição de louvor diante do palco.
Eu estava sem forças, quase agonizando, e esperando pelo pior.
Minha companheira e nossos acompanhantes cantavam as músicas com emoção. Eu estava sozinho, não havia sinal de outra pessoa que estivesse alí sofrendo. Eu deveria ser o último não encantado.
Ao pensar nisso, olhei um pouco a frente e ví uma pessoa conhecida, e que era da mesma ordem que eu. Não acreditei, ele não estava cantando, e não pulava, parecia indiferente ao que acontecia no palco. Enfim, era alguém para lutar comigo! Ergui minhas mãos para alcançá-lo, tentando desviar do amaldiçoados. Faltava pouco, estava quase tocando seu ombro...quando uma figura lançou-se na minha frente, capturou meu nobre colega em seus braços e eles começaram a se beijar. Após o beijo, eu pude ver a face do mal, ele estava dançando agora, e já arriscava cantar alguns versos das terriveis músicas. Era tarde.
Esperei pelo fim daquela tortura com forças sobre-humanas. pelo que me lembro, nesse dia, o nível de ações abomináveis continuou assim, até o final daquele show, onde as pessoas estavam acabadas, com suor em suas faces e extremamente satisfeitas. Alguns pediam mais. Imaginei que esses deviam estar no último estágio do encanto. O próximo talvez, seria se transformar no narrador bizarro.
Eu me entreguei ao chão, e tudo escureceu.
Mal sabia minha pobre alma, que o dia seguinte seria pior...
[continua]