terça-feira, 18 de maio de 2010

O que já foi nosso...

Tive o prazer de crescer ouvindo boa música. Quando criança, me lembro de brincar com um amigo de infância ouvindo cazuza, blitz, Barão Vermelho.

Ele tinha um irmão mais velho que era adepto ao rock n’ roll, e ali, minha vida mudava aos poucos e eu nem percebia.

Na década de oitenta, com a explosão de bandas do circuito de Brasília, Rio e São paulo, crescia de igual forma a vontade de se cuspir todo ódio contra o sistema opressor da época: a ditadura. Anos calados inflaram o ânimo daqueles jovens que queriam liberdade. E eles pediam por isso em suas músicas.

Havia um motivo, sempre houve. Mesmo as letras sobre amor, ou romance, eram de um fundo poético notável.

Musica era atitude. A música mudava uma geração inteira. Propunham temas para se pensar, para se agir.

Me lembro de iniciar minha puberdade viciado em legião urbana, e mesmo não tendo algo pra lutar, me sentia indignado, revoltado. Sabia que havia muito o que mudar.

Renato Russo tinha razão, Cazuza tinha razão. Assim como outros vários artistas que seguiam aquela maré de mudanças.

E no decorrer da adolescência ganhei muitos heróis: Engenheiros, Titãs, Paralamas, Kid Abelha, Lulu Santos, e tantos outros músicos que me maravilharam com suas letras fortes e suas melodias marcantes.

Os anos se passaram, e muita coisa mudou. E não foi para melhor.

A rebeldia deu lugar a comodidade e ao vazio. Bandas nascidas em condomínios de luxo, sem letras, sem notas, sem sentimentos. Aliás, falsos e exagerados sentimentos.

As paradas de sucesso substituiram meus heróis por produtos. Feitos para vender, e vender muito. Atingem um público que foi previamente influênciado por anos de manipulação da mídia (por mais anárquico que isso possa parecer, é real).

Os verdadeiros artistas ficaram calados, se silenciaram. Estão apagados diante de um brilho falso e infame de pré-adolescentes com roupas coloridas e cabelos sem cortes dizendo coisas sem sentido, chorando sentimentos ou falando de perdas ou sofrimentos dos quais nunca sofreram. Ao menos não na vida real.

Tenho medo quando penso no futuro da música em geral no meu país, não digo só do rock, até porque ele anda muito doente a um bom tempo. Sei que meus filhos crescerão no meio de lixos sonoros e letras vergonhosas. Isso já é real.

O que resta é resgatar o que foi registrado. Os bons discos, as obras de arte dos meus heróis não desaparecerão tão cedo. E até lá, eu lembrarei pelas músicas de uma época passada que já fez algum sentido.